O Santuário de Nossa Senhora das Preces,
uma jóia do património na Região Centro

Autora: Célia Lourenço

O Santuário de Nossa Senhora das Preces é uma pérola do  património cultural, religioso e ambiental, da Região Centro. Está localizado junto à aldeia de Vale de Maceira, freguesia de Aldeia das Dez, concelho de Oliveira do Hospital e  desenvolve-se entre 650 e 750 m de altitude, ou 1244 m, se consideraramos o alto do Monte do Colcurinho.

  A sua origem remonta à segunda metade do século XIV, quando no ano de 1371 a imagem de N.ª Sr.ª foi encontrada por uns pastorinhos no alto do Monte do Colcurinho. Dado o caráter inóspito do local, em finais do século XVI, ou princípios do XVII, a imagem foi transferida para uma pequena ermida situada em Vale de Maceira, local onde se viria a edificar o atual Santuário. A sua construção terá decorrido durante os séculos XVIII e XIX. Além da igreja, templo imponente de 50 m de comprimento por 10 de largura, com cinco altares, sendo o altar-mor votivo à bela imagem de N.ª Sr.ª das Preces e com ricas pinturas no teto, o santuário integra uma Via-Sacra, com figuras de madeira em tamanho real, um chafariz monumental e um coreto. O conjunto é envolvido por um parque florestal de raro valor e de onde se desfruta uma panorâmica belíssima sobre a região.

No primeiro domingo de Julho aqui decorre a romaria centenária de Nossa Senhora das Preces, que foi, durante os séculos XIX e XX, a maior romaria das Beiras. Aqui se deslocavam centenas ou milhares de pessoas em peregrinação, ou em busca da folia, durante o arraial. Da Beira Baixa vinham ranchos, sobretudo de jovens, em carros de bois para pernoitarem, rezarem e bailarem. Já em meados do século XX, era possível contar mais de uma centena de autocarros, a fé cruzava-se com a folia e a feira, onde se adquiriam os mais variados bens, desde o chapéu de palha, para proteger do sol escaldante do estio, até à roupa domingueira e aos brinquedos, passando pelos “comes e bebes”, para alimentar o corpo, depois de aconchegada a alma. Destacava-se durante a festa a imponente procissão, o orgulho da Irmandade de N.ª Sr.ª das Preces.

 O mundo mudou, as Beiras e as suas gentes mudaram, mais recentemente a romaria é uma pálida imagem dos tempos áureos. Contudo, há sinais de revitalização, o jovem pároco, recém chegado, o Sr. Padre Rodolfo Albuquerque, trouxe a esperança, em 2019, a romaria foi majestosa, atraiu muitos crentes e fez lembrar outros tempos. Não fosse a pandemia da Covid19, nos anos seguintes haveria também uma grande festa, as estratégias estavam pensadas e preparadas para repetir o êxito. Não foi possível em 2020 e em 2021, mas esperemos que seja em 2022! Cumpre parabenizar a capacidade de reinvenção e de inovação do pároco e da Irmandade, representada pela sua juíza, a Sr.ª Dr.ª Graça Lourenço, bem como a colaboração e o apoio emprestados pela Junta de Freguesia e pelo Município.

Integrado no Santuário de N.ª Sr.ª das Preces, existe um  jardim botânico dotado de grande biodiversidade de espécies florestais autóctones e exóticas, que, infelizmente, foi  muito afetado pelo incêndio de 2017, mas já está ser alvo de recuperação, tendo beneficiado da atribuição do  Prémio Vilalva, da Fundação Calouste Gulbenkian, na sua  10.ª edição, em 2018. Num pequeno passeio, ainda é possível observar árvores centenárias, de que são exemplo as majestosas sequóias, uma espécie exótica, bem como espécies da flora portuguesa de grande valor botânico. É igualmente possível observar outros encantos do jardim, como sejam os vários lagos, a cascata ou a beleza arquitectónica da escadaria de acesso ao jardim e desfrutar do ambiente calmo que convida ao recolhimento e a respirar o ar puro envolvente.

A culminar o vasto espaço do Santuário, está o Monte do Colcurinho,  integrante da Serra do Açor, a uma altitude máxima de 1244 metros. O seu nome remonta, consoante as versões, à presença dos Lusitanos e dos Romanos. As rochas que constituem este monte são essencialmente de origem xistosa e formaram-se há aproximadamente 600 milhões de anos. É um local privilegiado e de rara beleza que advém do vastíssimo horizonte que se estende da Estrela ao Caramulo e do Montemuro ao Açor. É, provavelmente, um dos locais de onde melhor e, com mais encanto, se pode assistir quer ao nascer, quer ao pôr-do-sol. No alto do Monte está a capela da N.ª Sr.ª das Necessidades, que integra o Santuário.  Existem, também, vestígios de muros, que se pensa terem pertencido outrora a um castro, a uma torre de vigia, a um castelejo ou uma atalaia, ainda não devidamente estudados.

Este é um vastíssimo espaço de excecional grandeza arquitectónica, religiosa e paisagística e é, por isso, exemplar único na região.  

Em 2011, no decurso de um trabalho de pesquisa acerca do património cultural e ambiental concelhio, realizado por alunos da Escola Secundária de Oliveira do Hospital, e após uma ampla votação dos munícipes, em que foram eleitas  as 7 maravilhas do património do concelho, este espaço foi brindado com três galardões, o Santuário na categoria de património cultural e o Jardim Botânico e o Monte do Colcurinho na categoria de património ambiental.

Urge reconhecer o valor deste Santuário e promover o seu valor histórico-cultural e religioso, mas também enquanto espaço natural sublime, onde é possível descansar, meditar e usufruir a Natureza e a Paz, bens supremos, nos tempos conturbados que vivemos.

Está feito o convite, venha até ao Santuário de Nossa Senhora das Preces, contribua para a sua revitalização!

Fonte: A Comarca de Arganil, de 30 de julho de 2020      
(versão atualizada pela autora em abril de 2022).